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Planejando com MPS e MRP: uma aplicação na Indústria Brasileira

  • Foto do escritor: Fabio Fachini
    Fabio Fachini
  • 22 de mai.
  • 4 min de leitura

O Planejamento e Controle da Produção (PCP) constitui o núcleo decisório fundamental para a eficiência operacional. Sob a ótica de Slack et al. (2009), o PCP não apenas gerencia processos de transformação, mas reconcilia as exigências do mercado com a capacidade dos recursos. No contexto industrial brasileiro, a aplicação rigorosa do Plano Mestre de Produção (MPS) e do Planejamento de Necessidades de Materiais (MRP) transcende a técnica: é um imperativo estratégico para a retomada da competitividade nacional.


O Cenário da Produção Brasileira e a Necessidade de Rigor no PCP

A indústria de transformação no Brasil enfrenta um quadro crítico, marcado por mais de 25 anos de desindustrialização. Este fenômeno é agravado pela baixa produtividade sistêmica e pela baixa qualificação da mão de obra. Contudo, observa-se um movimento de contraposição tecnológica: as tecnologias avançam em velocidade elevada e o país registrou um alto investimento em PD&I nos últimos três anos.

Nesse panorama, a "esperança na industrialização" reside em setores resilientes, como o de alimentos e afins. Para converter esse potencial em vantagem competitiva, o rigor conceitual no sistema MRP II (Manufacturing Resource Planning) é indispensável. A precisão no MPS e MRP permite que as organizações brasileiras superem gargalos históricos, transformando o planejamento em um instrumento de viabilidade financeira e operacional.


MPS: Master Production Scheduling (Plano Mestre de Produção)

O MPS atua no nível tático da hierarquia do MRP II, desdobrando o Planejamento Agregado (longo prazo) em decisões específicas de volume e tempo.


Conceito e Definições

Segundo Corrêa et al. (1999), o MPS é o processo de planejamento de médio prazo que concilia o fornecimento com a demanda, focando exclusivamente em itens de demanda independente (produtos finais). Sua função é traduzir os objetivos estratégicos de vendas em um plano de produção concreto, equilibrando as necessidades de mercado com a disponibilidade de recursos críticos.


Hierarquia no MRP II e Informações de Entrada

O MPS situa-se abaixo do Planejamento Agregado e acima do MRP. Suas entradas fundamentais derivam da interface entre diferentes departamentos:

  • Departamento de Vendas: Previsões de demanda e pedidos firmes de clientes.

  • Engenharia/Operações: Níveis atuais de estoque e estratégias de produção (puxada vs. empurrada).

  • Planejamento: Horizon de planejamento (meses/semanas) e objetivos financeiros.


Tutorial de Execução (Lógica APICS)

A execução do MPS baseia-se na manutenção do Estoque Projetado (PAB) e na geração do Disponível para Promessa (ATP) para o setor comercial. A fórmula fundamental utilizada pelo especialista é: PAB{atual} = PAB{anterior} + Recebimento MPS - Max(Previsão, Pedidos\Firmes).

Grade de MPS (Simulação com Lote de Produção):

Semana

1

2

3

4

Previsão de Demanda

100

100

120

120

Pedidos Firmes

95

80

40

10

Recebimentos Programados (MPS)

100

100

100

200

Estoque Projetado (PAB)

20

20

0

80

ATP (Available-to-Promise)

5

20

60

190

Nota técnica: No cálculo do ATP, subtraímos os pedidos firmes do lote de MPS até o próximo recebimento agendado.


Saídas do Processo

As saídas principais consistem em ordens mestre de produção com quantidades e datas exatas. Estes dados são o combustível para a "explosão" das necessidades no nível do MRP.


Exemplo Prático: Setores Estratégicos (WEG e Ambev)

Em empresas como a WEG (Equipamentos) ou Ambev (Bebidas), o MPS é a ferramenta que gerencia as Dimensões 4V's das operações:

  1. Volume: Alta escala produtiva.

  2. Variedade: Amplo mix de SKUs.

  3. Variação de Demanda: Sazonalidade agressiva.

  4. Visibilidade (Contato): O grau de exposição direta com o consumidor final (Slack, 2009).

O domínio do MPS nessas organizações garante a Confiabilidade ("fazer em tempo") e a Flexibilidade ("poder mudar"), essenciais para o mercado brasileiro.


MRP: Material Requirements Planning (Planejamento de Necessidades de Materiais)

O MRP processa as necessidades de itens de demanda dependente, garantindo que nenhum insumo falte no momento da montagem.


Conceito e Definições

Para Corrêa & Gianesi (1996), o MRP utiliza a lógica de "explosão" para calcular quanto e quando pedir de cada componente, baseando-se no plano mestre e na estrutura do produto.


Processos Antecedentes e Informações de Entrada

As entradas são rigorosas:

  1. MPS: O que será produzido e quando.

  2. Lista de Materiais (BOM): A árvore do produto (Engenharia).

  3. Registro de Inventário: Saldos, estoques de segurança e ordens em aberto.


Tutorial de Execução (A Rotina de Comparar e Replanejar)

O MRP opera em um ciclo contínuo de Intervenção, conforme o diagrama de rotina da PUC Campinas:

  1. Gross Requirements: Necessidades totais vindas do MPS.

  2. Netting: O coração do processo. Subtrai-se o estoque disponível das necessidades brutas para obter as necessidades líquidas.

  3. Offsetting: Deslocamento para trás no tempo, considerando o Lead Time de cada fornecedor.

  4. Explosion: O cálculo desce para o próximo nível da árvore (ex: Produto -> Subconjunto -> Componente).

ESTRUTURA DA EXPLOSÃO (BOM):

Nível 0: Produto Final (MPS)

 └── Nível 1: Componente A (Lead Time: 2 sem)

      └── Nível 2: Matéria-prima X (Lead Time: 4 sem)

*A ordem de X deve ser emitida 6 semanas antes da entrega do Produto Final.*

Saídas do Processo

As saídas orientam o "chão de fábrica" e as compras: Ordens de Compra, Ordens de Fabricação e Relatórios de Exceção (alertas para reprogramar ordens em atraso).


Exemplo Prático: Cadeias de Suprimentos (Petrobras e Vale)

Em operações de alta complexidade como Petrobras (Petróleo) ou Vale (Mineração), o MRP mitiga as incertezas de fornecimento. O sistema permite focar nos objetivos de Custo ("fazer mais barato") e Qualidade ("fazer certo"), evitando a imobilização desnecessária de capital em estoques de sobressalentes ou paradas de planta não programadas.


Integração: O Fluxo Sistematizado de PCP

O PCP integra as três variáveis críticas do Modelo Geral de Transformação: Instalações, Pessoas e Materiais. A gestão eficiente deste fluxo é o que protege a organização contra os Riscos à Segurança identificados na visão sumária da PUC Campinas:

  • Riscos Financeiros: Ineficiência de capital.

  • Riscos de Imagem e Clientes: Falhas na entrega e confiabilidade.

  • Riscos Legais e Ambientais: Sobras de materiais ou processos inadequados.

  • Riscos de Colaboradores e Produto: Falta de insumos para o trabalho ou perda de qualidade.

Domar o MPS e o MRP é, portanto, a base para o cumprimento dos Objetivos Estratégicos da Produção, permitindo que a indústria brasileira transite de uma posição de baixa produtividade para uma de vantagem competitiva global.


Quadro Resumo: MPS vs. MRP

Característica

MPS (Plano Mestre)

MRP (Necessidades de Materiais)

Foco

Produtos Acabados

Componentes e Matérias-Primas

Tipo de Demanda

Independente (Mercado)

Dependente (BOM)

Horizonte

Médio Prazo (Semanas/Meses)

Curto Prazo (Dias/Semanas)

Lógica Principal

Conciliação Fornecimento x Demanda

Netting, Offsetting e Explosão

Principal Objetivo

Confiabilidade e Flexibilidade

Custo e Qualidade

Principal Risco

Risco Financeiro e de Clientes

Risco de Produto e Financeiro


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