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Desvendando a Capacidade de Produção: Do Planejamento Estratégico ao Chão de Fábrica

  • Foto do escritor: Fabio Fachini
    Fabio Fachini
  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

Entendendo o Universo do PCP e Capacidade

Sejam bem-vindos!

No cenário industrial brasileiro atual, enfrentamos desafios severos: são mais de 25 anos de desindustrialização e um histórico de baixa produtividade. Para reverter esse quadro e transformar o recente aumento em investimentos de PD&I em resultados reais, o domínio do Planejamento e Controle da Produção (PCP) é o nosso maior aliado.

Como nos ensina Slack (2002), o PCP atua como o regente de uma orquestra, cujo principal objetivo é conciliar Fornecimento (Supply) e Demanda. Essa conciliação não é fruto do acaso, mas de um fluxo sistematizado regido por políticas de capacidade produtiva. A capacidade não é apenas o "tamanho" da fábrica, mas a estratégia de como utilizaremos nossos recursos para agregar valor.

Para gerir esse fluxo, dividimos o planejamento em três horizontes temporais — Longo, Médio e Curto Prazo — representados pelas siglas RRP, RCCP e CRP. Vamos entender como cada uma delas evita que a empresa naufrague em meio às incertezas do mercado.

Inicando nossa viagem à "sopa de letrinhas" do MRP ll:


RRP – Resource Requirements Planning (Planejamento de Necessidades de Recursos) - Longo Prazo

O RRP é o nível de Longo Prazo (horizonte de meses ou anos). Aqui, as decisões são estratégicas e financeiras. Segundo o Modelo Geral de Transformação, o RRP foca nos Recursos de Transformação (Instalações e Pessoal). É o momento de decidir se precisamos construir uma nova planta ou adquirir maquinário de alta tecnologia para combater a obsolescência.

Entradas para os cálculos do RRP:

  • Previsões de Demanda Agregadas: Estimativas macro de vendas.

  • Objetivos Estratégicos: Definição da posição competitiva da produção.

  • Recursos a serem transformados: Disponibilidade global de materiais e informações.


Como calcular:

  1. Consolide a demanda anual em unidades agregadas (ex: "família de produtos").

  2. Identifique o tempo padrão total para produzir uma unidade dessa família.

  3. Multiplique a Demanda pelo Tempo Padrão para obter a Carga Global.

  4. Subtraia a Capacidade Disponível atual para identificar o gap de investimento.


ATENÇÃO: No RRP, não olhamos para o parafuso ou para a peça X. Olhamos para o "galpão" e para o "quadro de funcionários". Como diz Corrêa (1999), o foco aqui é a viabilidade estratégica do negócio.


Avaliando uma aplicação:

A EletroBrasil S.A. deseja lançar uma nova linha de ar-condicionado.

  • Demanda Prevista: 150.000 unidades/ano.

  • Tempo de Produção: 2,0 horas/unidade.

  • Capacidade Atual da Planta: 260.000 horas/ano.


Cálculo:

  • Carga Necessária: 150.000 x 2,0h/un = 300.000 horas.

  • Diferença de carga: 300.000 - 260.000 = 40.000 horas. (faltantes)

  • Exemplo de Decisão Administrativa: A diretoria deve aprovar a expansão da fábrica ou a terceirização de parte da produção, pois a estrutura atual não suporta a estratégia de crescimento.


RCCP – Rough Cut Capacity Planning (Planejamento de Capacidade de Corte Bruto)

O RCCP atua no Médio Prazo (semanas/meses). O termo "Rough Cut" (Corte Bruto) existe porque, para o administrador, o tempo é escasso: ignoramos os recursos abundantes e focamos apenas nos Recursos Críticos (Gargalos). O objetivo é validar o Plano Mestre de Produção (MPS).


Entradas e Fontes

  • Plano Mestre de Produção (MPS): O que e quando vamos produzir.

  • Lista de Recursos Críticos (Capacity Bill): Tabela que relaciona os itens do MPS com o tempo consumido apenas nos centros de trabalho restritivos.

Tutorial de Cálculo

  1. Identifique os centros de trabalho "gargalo" (ex: uma máquina de solda única).

  2. Para cada item no MPS, multiplique a quantidade pelo tempo de processamento no gargalo.

  3. Some o total e compare com a disponibilidade do recurso crítico no período.


Exercício Resolvido: Pedal Brasil

A Pedal Brasil produz dois modelos de bicicletas. Seu gargalo é o setor de Pintura Eletrostática.

  • MPS Mês 01: Modelo Sport (400 un) e Modelo City (600 un).

  • Tempo na Pintura: Sport (0,4h/un) e City (0,3h/un).

  • Capacidade da Pintura: 350 horas/mês.

Cálculo:

  • Carga Sport: 400 x 0,4h/un = 160h.

  • Carga City: 600 x 0,3h/un = 180h.

  • Carga Total: 160 + 180 = 340h.

  • Análise: O plano é viável, pois a carga de 340h é inferior à capacidade de 350h.

    OBS: Fica a cargo do gestor da produção avaliar ações para a ociosidade de 10 horas na semana.


CRP – Capacity Requirement Planning (Planejamento de Necessidades de Capacidade)

Conceito e Elementos

Chegamos ao Curto Prazo (dias/horas). O CRP é o nível mais detalhado. Aqui, o foco muda drasticamente: saímos do planejamento e entramos no Controle e Intervenção. Utilizamos a demanda real (pedidos firmes) para monitorar se o que foi planejado está sendo executado.


Entradas e Fontes

  • Ordens de Fabricação (OFs): Documentos que autorizam a produção.

  • Roteiro de Engenharia: Sequência de operações em todos os Centros de Trabalho (CT).

  • Status de Estoque e Lead Times detalhados.

Tutorial de Cálculo: Carga por Centro de Trabalho

No CRP, trabalhamos com precisão. Para evitar confusões no chão de fábrica, calculamos tudo em minutos antes de converter para horas:

  1. Some o Tempo de Setup (preparação) ao Tempo de Operação (Qtd x Tempo Unitário).

  2. Aplique a Eficiência do setor (capacidade real).

  3. Compare a carga total das OFs com a disponibilidade do turno.

Exercício Resolvido: UsiTec Minas

A célula de usinagem da UsiTec Minas tem 3 ordens para a terça-feira. A célula tem disponibilidade de 480 minutos (1 turno de 8h), mas sua eficiência histórica é de 90% (capacidade real = 432 min).

Ordem

Setup (min)

Tempo Operação (un)

Quantidade

Carga Total (min)

OF 101

30

5 min

20 un

30 + 100 = 130

OF 102

45

10 min

15 un

45 + 150 = 195

OF 103

20

4 min

30 un

20 + 120 = 140

TOTAL

-

-

-

465 min

OBS: A carga de 465 min excede a capacidade real de 432 min. O gestor deve intervir imediatamente: ou autoriza hora extra ou reprograma a OF 103 para o turno seguinte para evitar atrasos na entrega (Confiabilidade).

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Comparativo e Integração entre RRP, RCCP e CRP

Abaixo, consolidamos a visão sistêmica necessária para a gestão, integrando o efeito dos 4V's (Slide 22):

Dimensão

RRP (Longo Prazo)

RCCP (Médio Prazo)

CRP (Curto Prazo)

Nível de Detalhe

Agregado (Famílias)

Itens Críticos/Gargalos

Totalmente desagregado

Volume

Alto (Decisões de massa)

Médio

Baixo (Ordens específicas)

Variedade

Baixa

Média

Alta (Customização/OFs)

Principal Objetivo

Investimento/Expansão

Viabilidade do MPS

Programação e Intervenção

Robustez

Baixa (Planos macro)

Média

Alta (Ajuste a desvios)

Decisões de Controle

Agregadas

Operacionais

Detalhadas

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A Importância da Visão Sistêmica

Dominar esses cálculos não é apenas um exercício matemático, é a chave para a Vantagem Competitiva. Como citam Slack et al. (2009), a produção deve suportar os cinco objetivos de desempenho: Qualidade, Rapidez, Confiabilidade, Flexibilidade e Custo.

Quando um administrador utiliza o RRP para prever recursos, o RCCP para proteger gargalos e o CRP para intervir no chão de fábrica, ele garante que a empresa "faça certo" e "em tempo". No complexo cenário brasileiro, essa eficiência operacional é o que separa as empresas que apenas sobrevivem daquelas que lideram o mercado.

Sucesso em sua jornada na gestão de operações!

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